terça-feira, 7 de julho de 2015

O andar do Lobo Ferido (trecho)



E com o passar dos anos, ele aprendeu a combater os invejosos com elogios. Tentava enxergar, na mínima ação que fizessem, algum brilho revelador. Quase chegava a acreditar no valor daquilo que dizia. E continuava seu caminho, seguro e sereno. E, os invejosos o fitavam, crentes de que enxergavam um igual. Mas o sol, cruelmente sincero, projetava sua luz sobre todos, e sua sombra destacava-se, onde quer que se posicionasse, para se proteger das intrigas. Foi então que a noite chegou. E, perante a luz da lua cheia, ele percebeu que só lhe restava soltar seu poderoso uivo, que incomodava e ensurdecia os demais, gelando suas espinhas. Se a luz do sol evidenciava a sua sombra, a escuridão da noite a transformava num imenso manto.

Trecho do conto “O andar do Lobo ferido” - Extraído do meu livro “Crônicas dos espíritos da Terra”

Amar

 


Amar é sentir-se novamente uma criança
perdida em uma praia, 
de mãos dadas com outra
nenhuma certeza
só o mar, pela frente

É olhar para o lado e ver,
na outra criança, de iguais perguntas
só a certeza de segurar a sua mão
e mergulhar neste mar sem fundo
certa de que vai chegar

Amar é fé
infantil, e precisa
é saber que pode se sentar
e ver o por do sol
em silêncio

É ter mil anos
e poucos meses
de uma só vez
É poder respirar
com a cabeça no ombro

E paz
o coração batendo a mil
os dedos fincados na areia
em paz

sábado, 4 de julho de 2015

Como nasce uma piada



A gente nunca sabe com certeza como (ou onde) nasce uma piada (ou um boato), mas existe uma que eu tenho quase certeza que vi nascer, pelo contexto do fato. Trabalho com oratória desde 1993 e, apesar de trabalhar muito com um público corporativo, também tenho o público religioso como um dos meus principais nichos (tenho, inclusive, um livro publicado pelas paulinas sobre o assunto). Em alguns períodos, sou convidado a ministrar cursos em alguns seminários e Faculdades católicas, pelo país. Foi numa dessas ocasiões que fui convidado pelo Seminário de Santo Afonso, em Aparecida (SP), para um curso de final de semana, para uma turma de seminaristas. Lá eu conheci o Padre Hilton Furlani (esse aí da foto), que hoje está com 86 anos de idade, e nunca perdeu seu bom humor. Sei disso porque, apesar de não vê-lo há anos, sempre tenho notícias dele. O Padre Furlani, durante o jantar, me contou um dos seus divertidos "causos":
- Professor, o Senhor deve ter percebido que aqui, na entrada do nosso Seminário, temos uma pequena estrada de paralelepípedos. Pois bem, eu ainda era um jovem seminarista quando um candidato a prefeito veio aqui, fazer campanha; e durante o discurso, fez uma promessa: "Eu tenho fé, vocês têm fé, e com as nossas fezes, nós vamos paralelepipeidar este seminário!"
É claro que todos caímos na gargalhada. E eu passei a contar este "causo" em alguns dos meus cursos, para ilustrar alguns tipos broncos de oradores populistas que existem por aí (na sua maioria, políticos).
Outro dia, em um programa humorístico, na TV, um comediante soltou uma piada, onde dizia: "Eu tenho fé, vocês têm fé. E, com as nossas fezes..." E, parou por aí.
A piada até que funcionou, mas, com o "paralelepipeidar", é impagável!

terça-feira, 30 de junho de 2015

Bella Ciao




"Esta é a história de um sonho! De um grande sonho de um pequeno homem!" Me lembro até hoje desta frase, que abria a peça "Bella Ciao", produzida pelo Grupo Arte Viva; um dos trabalhos mais lindos que vi no teatro. Mudou a minha vida, completamente! Nem lembro de quantas vezes assisti a essa obra prima, no extinto Teatro Taib, na Rua Três Rios, no Bairro do Bom Retiro. Eu já estudava teatro naquela época (1984), e me encantei com a peça, com tudo. Me lembro até que consegui convencer a produção a me deixar gravar o espetáculo com um gravador K7 (naquela época era muito caro comprar uma câmera de VHS). Ficava ouvindo o espetáculo, em casa, e imaginando as cenas. Alí eu decidi: Vou estudar dramaturgia com esse cara (o Luis Alberto de Abreu, autor do texto), e fui à luta! Consegui o telefone dele, fui até a casa dele (no bairro da Vila Mariana), conheci a esposa dele, com seu filho recém nascido, e não larguei mais do seu pé até que ele me aceitou como seu aluno na turma de dramaturgia, que ele montou no CPT (do Antunes Filho), quatro anos depois (em 1988). Aquele elenco maravilhoso até hoje povoa meus sonhos, com os ecos de suas maravilhosas interpretações. Fiquei amigo de alguns. Mas, do Abreu, eu virei discípulo, sem babação de ovo ou idolatria. Por respeito, e admiração, a alguém modesto, provocador, de fala mansa... Tranquilo! O meu mestre, Abreu! A gente às vezes anda por essa vida, causando uma coisa aqui, outra aculá, e nunca se dá conta do quanto realmente causamos. E de quantas vidas transformamos. Gratidão, Grupo Arte Viva! A arte de vocês ainda vive em mim.

domingo, 28 de junho de 2015

TRAPEZISTA


Quando eu era criança, e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu nunca sabia o que responder. Travava na resposta!
Um dia, quando meu pai me levou em um dos circos que passavam pela minha cidade, na saída eu declarei, como num suspiro, sem que ninguém me perguntasse: - Quando eu crescer, quero ser trapezista!
Ninguém me perguntou por que. Deram um sorriso, entendendo minha empolgação, e a história ficou ali mesmo.
Hoje, eu chamei minha criança para um papo e lhe perguntei o porque daquela resposta. E ela me disse, sem pestanejar, com a simplicidade que um dia eu tive:
- Ah, porque um trapezista não tem nada, e tem tudo. Tudo o que ele precisa já está com ele, no seu corpo e na sua mente. Ele só precisa de um pouco de pó, nas mãos, para não escorregar. Porque ele se arrisca, e parece gostar disso. Ele é livre! Conhece a liberdade de um pássaro voando, mesmo que seja apenas por alguns segundos, quando se joga no vazio. E também porque ele depende das outras pessoas, e sabe valorizar isso, abençoando a mão que o agarra, aparando-o no ar. Na verdade, o que eu queria mesmo, quando crescesse, era ter o “espírito de um trapezista”, não importando a profissão que escolhesse, desde que eu pudesse ter tudo isso. E aí, eu virei ator!

sábado, 27 de junho de 2015

Sobre a felicidade




Escrevi isso há exatos dois anos, em um momento delicado de minha vida, onde tive que tomar decisões drásticas, que desagradariam a algumas pessoas, que nos julgam só pelo que veem, mas são incapazes de perceberem a nossa dor, mesmo quando ela não lhes afeta. Em resposta a tudo isso, uma piscadela!

"Para ser feliz, é preciso coragem! A felicidade é uma dama caprichosa, que não suporta a companhia de pessoas medíocres (de gosto médio), hipócritas, omissas, que gostam de por "panos quentes" em tudo e fogem do conflito, quando ele é saudável e exige transformação. Dito assim, parece cruel; mas, é tão óbvio e poeticamente verdadeiro, que não levamos isso em conta. Os filósofos queimaram as pestanas para concluir, fatalistas, que a felicidade é uma utopia! É sim, para a maioria. Ela só anda na companhia de quem a merece. Coragem para cortejá-la não é tudo, mas é o primeiro passo. Fique atento, se algum dia der esse primeiro passo. Ela sempre te sinalizará com uma elegante, e discreta, piscadela."

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sobre a certeza

Existem pessoas que não percebem a riqueza da dúvida porque andam embriagadas com a pobreza da falsa certeza. Aquele que realmente possui a certeza, nunca para de descobrir as novas faces da verdade. Surpreende-se como uma criança, que nunca deixa de emocionar-se espontaneamente.