Mostrando postagens com marcador motivação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador motivação. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de dezembro de 2015

2016 - O seu livro do ano novo


Um ano é um livro mágico e especial, de 365 páginas, dividido em 12 capítulos que deve ser lido com muito cuidado. Pois, ao virar cada página, você só poderá contar com sua memória para resgatar o que aprendeu enquanto a lia. Não é possível voltar a determinada página depois de tê-la virado.Por essa razão, você precisa desfrutar de cada página, sem pressa. Deve relê-la no mínimo três vezes. E em cada uma dessas três vezes você deve se fazer três perguntas. Como a leitura desta página pode me ajudar a:
1. Cuidar melhor do meu corpo? Pense em tudo o que se relaciona à sua melhoria e satisfação física (alimentação, esporte, sexo, estética, etc).
2. Cuidar melhor da minha mente? Pense em tudo o que se relaciona à sua melhoria e satisfação intelectual e emocional (estudo, lazer, cultura, família, carreira, projetos pessoais, relacionamentos inter-pessoais, etc).
3. Cuidar melhor do meu espírito? Pense em tudo o que se relaciona ao seu aprimoramento espiritual (estudos filosóficos e religiosos, meditação, orações, etc).

Depois de responder a cada uma dessas perguntas enquanto lê a página do seu dia, você deverá atentar para algumas regrinhas básicas para tirar o melhor proveito desta leitura:


  • Não tenha pressa na sua leitura. Dose a sua energia na leitura de seu livro diário. Aprecie o caminho. A vontade é um tipo de energia que deve ser dosada e devidamente administrada. Quando começamos um projeto com muita vontade, ela se esgota com a empolgação; e acabamos desistindo logo.
  • Ao terminar cada capítulo, reflita sobre ele. Quando observamos como e para onde estamos indo, nossa fé se fortalece e nossa vontade se renova. Tudo aquilo que planejamos faz sentido e o que não é relevante, é descartado. O que tem de ser tem muita força. Quando você faz uma lista do que pretende fazer, no início do ano, e a analisa ao término do mesmo, fica frustrado porque se dá conta de que muita coisa não foi cumprida. Quando avaliamos cada conquista, ao final de cada mês, adaptamos nosso planejamento de acordo com as mudanças e mantemos nossas metas com maior rigor. Nossa dispersão diminui e nossa energia se renova. Capitalizamos as conquistas (o que nos fortifica), aprendemos com os erros (o que nos renova) e descartamos o que não importa (nos limpamos, tiramos o excesso. Ficamos mais leves e ágeis).
  • Pratique o que leu. De nada adianta teorizar a vida. Ela precisa ser vivida. Cem gramas de prática valem mais do que um quilo de teoria. Um dos grandes conflitos do homem moderno é conseguir colocar em prática toda a informação que recebe. Nossa cultura, repleta de informações, nos dispersa e estimula a prática de constantes reuniões e excessivas reflexões. O resultado são grupos de pessoas conectadas às mais diversas redes sociais, que falam rápido, pensam rápido e querem viver a vida de maneira alucinada num único respiro. Buscam avidamente estímulos rápidos e variados, que só fazem aumentar o enorme abismo existente em nossa alma. A satisfação imediata nos impede de degustar o que realmente importa, o explicito nos embota a imaginação e o “espírito de praticidade” nos afasta da vivência (fruto da verdadeira prática). Hoje vivemos no extremo entre a excessiva racionalidade e a fé cega, dogmática vazia de reflexão. Um dos livros mais sábios da humanidade foi escrito pelo poeta grego Hesíodo. Chama-se O trabalho e os dias, e nele o autor nos apresenta preciosas lições de como nos iluminarmos no nosso labor diário, vivendo cada momento como se fosse único, integrados em nosso meio, nosso eco-sistema. Nunca se falou tanto em ecologia e nunca estivemos tão desligados de nosso meio ambiente. Integrar corpo, mente e espírito, nesta ordem de prioridade é a verdadeira forma de se espiritualizar e viver um ano com plenitude e qualidade. O famoso Filósofo e Teólogo Jesuíta Teilhard de Chardin afirmou, certa vez, que: “Somos seres espirituais, vivendo uma experiência terrena, não o contrário.” É fácil alcançar o nirvana vivendo numa floresta, em constante retiro espiritual, ao lado de uma cachoeira e do canto dos pássaros. A verdadeira elevação do espírito deve existir no dia a dia, pagando contas e enfrentando o trânsito, sem se deixar abalar, no coração da tempestade. É preciso praticar, para que a mente e o espírito tenham o que depurar e refinar. O corpo age, a mente depura e o espírito refina.




Feliz ano novo e boa leitura do seu livro!
Emilio Gahma
www.emiliogahma.com.br

sábado, 11 de julho de 2015

Decifra-me ou te devoro!

Nosso país é como uma imensa esfinge, que nos lança enigmas diariamente. Quem consegue responder às questões lançadas, não vê crise, vê oportunidade

Em 1996 tive a oportunidade de trabalhar, por um curto período, para um empresário chinês que me contratou para auxiliá-lo na análise do mercado brasileiro (pretendia exportar para o Brasil). Sua empresa exportava para o Japão e Alemanha (mercados exigentes), e ele tinha grandes planos para o Brasil. Era um homem objetivo, obcecado e determinado. Um autêntico “Tigre Asiático”. Veio com discursos do tipo: - Trabalhe direitinho e, em menos de dois anos você terá o seu Mercedes Benz!
Após algumas semanas de análise, ele bateu em retirada, com a seguinte conclusão: - Tenho que estudar melhor, antes de entrar em seu país. Seu mercado é muito complexo. Nunca mais soube dele. Nos anos seguintes, trabalhei com outras empresas estrangeiras, e obtive excelentes resultados (digo isso sem falsa modéstia, pois as evidências falaram por si). A conclusão a qual cheguei foi a seguinte: De todas aquelas empresas, seja na área comercial ou cultural, com as quais trabalhei, as que obtiveram os melhores resultados por aqui foram aquelas que entraram no nosso país com humildade, dispostas a aprenderem conosco e sobre nós. Aquelas que chegaram com discursos mágicos, com arrogância, e carregando em sua pasta a solução ideal, quebraram a cara. É verdade que temos muito que aprender com outras culturas que deram certo, mas temos também que nos avaliar nos nossos melhores valores. Temos aqui, também, homens geniais, honestos, bons empresários e líderes, que amam nosso país e todo dia acordam dando o seu melhor, mesmo com as adversidades e contra uma corja de políticos que tentam estragar essa bela terra. Digo isso porque conheço alguns, pessoalmente. São pessoas dignas e preciosas, que lidam com essa imensa esfinge, que é o nosso país, e todo dia decifram as questões que ele lhes lança. Cabe concluir, citando a frase do nosso genial Tom Jobim, que conhecia (e amava) esse país como ninguém: “O Brasil não é para amadores!”



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Arriscar-se!




"Arriscar-se é tropeçar em si mesmo, sempre. E, há melhor maneira de dar de cara com a gente, pra colocar o papo em dia?"

A lógica costuma ajudar nessas horas. Basta, nesta tropeçada consigo mesmo, se perguntar:

- O que eu tenho, antes de me arriscar?
- Nada!
- E o que eu terei, se me arriscar e falhar?
- Nada!
- Então, o que eu perco, me arriscando?
- Nada!

Simples, né?

sábado, 4 de julho de 2015

Como nasce uma piada



A gente nunca sabe com certeza como (ou onde) nasce uma piada (ou um boato), mas existe uma que eu tenho quase certeza que vi nascer, pelo contexto do fato. Trabalho com oratória desde 1993 e, apesar de trabalhar muito com um público corporativo, também tenho o público religioso como um dos meus principais nichos (tenho, inclusive, um livro publicado pelas paulinas sobre o assunto). Em alguns períodos, sou convidado a ministrar cursos em alguns seminários e Faculdades católicas, pelo país. Foi numa dessas ocasiões que fui convidado pelo Seminário de Santo Afonso, em Aparecida (SP), para um curso de final de semana, para uma turma de seminaristas. Lá eu conheci o Padre Hilton Furlani (esse aí da foto), que hoje está com 86 anos de idade, e nunca perdeu seu bom humor. Sei disso porque, apesar de não vê-lo há anos, sempre tenho notícias dele. O Padre Furlani, durante o jantar, me contou um dos seus divertidos "causos":
- Professor, o Senhor deve ter percebido que aqui, na entrada do nosso Seminário, temos uma pequena estrada de paralelepípedos. Pois bem, eu ainda era um jovem seminarista quando um candidato a prefeito veio aqui, fazer campanha; e durante o discurso, fez uma promessa: "Eu tenho fé, vocês têm fé, e com as nossas fezes, nós vamos paralelepipeidar este seminário!"
É claro que todos caímos na gargalhada. E eu passei a contar este "causo" em alguns dos meus cursos, para ilustrar alguns tipos broncos de oradores populistas que existem por aí (na sua maioria, políticos).
Outro dia, em um programa humorístico, na TV, um comediante soltou uma piada, onde dizia: "Eu tenho fé, vocês têm fé. E, com as nossas fezes..." E, parou por aí.
A piada até que funcionou, mas, com o "paralelepipeidar", é impagável!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sobre a certeza

Existem pessoas que não percebem a riqueza da dúvida porque andam embriagadas com a pobreza da falsa certeza. Aquele que realmente possui a certeza, nunca para de descobrir as novas faces da verdade. Surpreende-se como uma criança, que nunca deixa de emocionar-se espontaneamente.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

MEU FILOSOFAR DE HOJE



"A maior honestidade que um homem pode ter é para consigo mesmo. Esse tipo de honestidade é a mais rara e difícil de ser alcançada, pois nunca somos a mesma pessoa, estamos sempre mudando, a cada momento somos um novo alguém. Então, ser honesto com quem? Como, se cada novo eu que surge está sempre sendo enganado pelas ideias e tramóias de um eu que já não existe?"

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Lençois, amantes e ácaros



Uma pesquisa (veja no link, anexo: http://www.bbc.com/…/cienc…/story/2005/01/050118_asmag.shtml) apontou que camas dessarrumadas possuem menos ácaros do que as perfeitinhas; contrariando o nosso perfeito senso de organização. Mas, a resposta é simples: camas arrumadas não possuem o suor dos amantes, os gritos sufocados na noite ou os gemidos trêmulos da carne. Ácaros gostam do suor frio dos solitários, das mãos geladas dos limpinhos e da baba dos chorões de travesseiros. Ácaros são velhos e embolorados, como as camas pouco usadas. Mantenha suas cobertas em desalinho! Nas dobras dos lençois ecoam os sons da noite passada, como se reverberassem pelos túneis de uma imensa caverna. Feliz dia dos namorados!

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Passado, presente e futuro




Se é verdade que no reino do absoluto, não existe presente, passado ou futuro, vivo neste absoluto. Agora, já! Ó tempo, senhor de todos os recortes da lembrança, fortalece o meu passado com gratidão, para que eu continue forte hoje, neste presente respirar. Para que meu peito, aberto e sedento, se encha com todas as possibilidades do vir a ser!

terça-feira, 2 de junho de 2015



O grito (kiai) deve ser surpreendente, deve vir do âmago, pois está liberando uma energia de ataque. Uma vez que este ataque vem em forma de som, assusta o inimigo e o deixa desprotegido por alguns instantes. Cada pessoa tem o seu próprio kiai, e ele é tão pessoal, quanto uma impressão digital. Um lutador que desejar desenvolvê-lo, precisa fazê-lo brotar, arrancá-lo, de suas entranhas.
Não se ensina um kiai, mas ele pode ser aprendido. Um professor pode orientar, conduzir, o aluno a pesquisar o seu próprio grito. Mas, se tentar ensiná-lo, o resultado será catastrófico. Seu aluno, certamente, cometerá o grave erro de tentar imitá-lo, aprendendo apenas uma forma vazia e estereotipada. O tiro sairá pela culatra. Quando se utiliza um kiai, estando apenas na forma, vazia de energia, ele não provoca qualquer efeito no adversário. Ao contrário, acaba alertando-o sobre o movimento do ataque e o deixa prevenido, facilitando a sua defesa.
O kiai deve ser surpreendente até para quem o emprega, ou então não deve ser usado. Se o lutador não sentir que vai surpreender, é melhor que ele ataque calado.

Trecho extraído de meu livro "Quem teme perder, já está vencido" (Lições aprendidas em uma academia de artes marciais, que podem ser úteis em vários setores de nossa vida) 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Brasas adormecidas



“De vez em quando uma lembrança vem, e nos pega desprevenidos. E, quando vem acompanhada de uma revelação, nos deixa mais surpresos do que curiosos.
Uma lembrança é como uma brasa que ainda arde em silêncio. Vez por outra jogamos água sobre ela; mas, logo em seguida, vem o coração e espera ela secar, para atear-lhe fogo, novamente.”

domingo, 10 de maio de 2015

O Monge e o Cervo



Um monge recebeu de seu mestre a determinação de ir até um dos pólos da terra para fazer um intenso trabalho de meditação.
- Você terá que ficar dois meses por lá. O frio é intenso e sua disciplina e autocontrole serão testados no limite. Leve todo o mantimento de que precisar. Mas, terá também que abandonar temporariamente sua dieta vegetariana. Aconselho-o a levar carne de carneiro, que é muito forte e lhe dará os nutrientes necessários para manter sua energia, e auxiliá-lo em seu treinamento.
O monge se preparou para a tarefa. Na véspera de sua partida, foi à cidade comprar carne de carneiro. Foi ao único frigorífico que havia na cidade. Não havia carne de carneiro:
- Tivemos muitas festas neste mês e toda a carne de carneiro foi servida nas comemorações. Temos outras carnes. Respondeu-lhe o açougueiro.
- Preciso de carne de carneiro, outra não servirá.
Ao voltar ao mosteiro, encontrou seu mestre com um arco e flecha nas mãos:
- Já que não encontrou carne de carneiro, terá que levar carne de cervo, que também pode servir ao seu propósito. Vá à floresta caçar!
- Quer dizer que, além de abandonar a minha dieta vegetariana, agora terei que matar?
- E qual é a diferença? A mão que mata o carneiro é igual à sua, ao matar o cervo. Vá caçar! Respondeu-lhe o mestre.
E o monge seguiu rumo à floresta. Próximo a uma clareira, encontrou muitos cervos, pastando. Armou seu arco e apontou na direção do mais forte e robusto. Foram longos segundos, até que a flecha tomasse seu caminho. Neste tempo lembrou-se de seus votos de compaixão, de suas renúncias e de seu profundo respeito por cada ser vivo. Errou! O grupo assustou-se e fugiu. Só um cervo ficou. Tranqüilo, caminhou em direção ao monge. Ao encontrá-lo, curvou sua cabeça perante o asceta.
- Por que não fugiu com os outros cervos, não percebe que irei matá-lo?
- Percebo, mas não o fará! Seu espírito está tão aprisionado em seus votos, que se me matar estará se condenando à danação eterna. Desta forma, eu entrego minha vida em suas mãos, e escolho o sacrifício, para que possa continuar sua evolução espiritual. Não sofra por mim, porque eu não sofrerei por você. Dou a minha vida com alegria para que possa nascer mais um santo sobre a terra.
O monge entendeu, naquele instante, o propósito de tudo. Armou-se de uma força descomunal e, com um único golpe, acertou a nuca do animal, matando-o. Gastou o resto do dia cortando sua carne e extraindo cada parte de seu corpo para serem aproveitadas ao máximo. Nada foi desperdiçado. O que não pode aproveitar, tratou de enterrar. A terra cuidaria de dar-lhes o destino apropriado. Então partiu, rumo à sua missão. Seu coração estava em paz, a ordem e o caos dançaram em harmonia, e o espírito do cervo voltou à fonte.
A elevação não está na ação ou na intenção, mas no desígnio único que habita em cada alma.

Extraído do livro "Crônicas dos espíritos da Terra" (de Emilio Gahma)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O canto da Genoveva



Nos primórdios do tempo nesta terra, havia um passarinho que nasceu cantando lindamente e encantava toda a floresta. Era um pássaro especial, com um canto incomum, que viveu por muitos anos, abençoado pelo próprio tempo, que não queria envelhecê-lo só para ouvir suas melodias. Mas, o inverno, invejoso porque seu canto era mais bonito que o assobio de seu vento, desceu implacável sobre ele. O pássaro morreu cantando, tentando se aquecer na força do seu cantar. Mas, nem seus agudos conseguiram romper o gelo; e a pobre ave se petrificou, e foi esquecida na era glacial.

Séculos depois, nasceu mulher, filha de um sapateiro, que a batizou de Genoveva. Era um ser incomum. Possuía um rosto lindo, o tronco arredondado como o de um passarinho e as pernas finas, com pés maiores que o normal. Bem cedo o seu canto se manifestou e foi notado por todos.

Seu pai a levou para cantar no coral da igreja, e o maestro se encantou com sua melodiosa voz.

Genoveva estudou, formou-se professora e, todo domingo, cantava no coral de sua paróquia. Quando o maestro faleceu, assumiu o seu lugar, bem jovem.

Um aluno seu um dia foi para a capital, estudar em um famoso conservatório. Formou-se cedo e, com apenas vinte anos, tornou-se maestro e aos vinte e cinco já era um dos mais famosos compositores de ópera.

Genoveva, nesta época, estava com trinta anos, quando foi convidada para cantar uma ária composta especialmente para ela. Recusou, alegando não gostar de ópera.

Seu ex-aluno não desistiu. Sempre que abria uma audição para formar um novo elenco, lhe convidava. Genoveva ignorava suas cartas.

Um dia, quando Genoveva completou quarenta anos, o jovem maestro apareceu em sua cidade determinado a convencê-la. Encontrou-a cantando em um teatro de peças burlescas, nos guetos da periferia onde morava.

- Toda vez que tem audição, eu te mando uma carta. Fico olhando no meio das candidatas procurando pelo teu rosto, mas você nunca está lá. Por quê?

- Já disse que não gosto de ópera.

- Mas, gosta de música. Esqueça o lugar, a história da peça, e todo o resto. Pense somente na música. Ela é maior que tudo. Os palcos do mundo precisam conhecer sua voz. Há tantas divas com talento inferior ao seu, que alcançaram os píncaros da glória. Por que reluta tanto em abraçar seu destino?

- Sou feliz onde estou.

O jovem regente partiu desolado, para nunca mais voltar. E Genoveva continuou em sua cidade, cantando nos guetos.

Enamorou-se de um trovador, que a levava junto para cantar nas praças; até morrer embriagado.

Genoveva ficou triste, com o coração partido, e buscou refúgio no seu canto, que ganhou um marcante tom de melancolia.

Começou a cantar nas tavernas, encantando poetas, boêmios, atrizes e meretrizes. Seu canto, pouco a pouco foi se apagando, perdendo o brilho e desaparecendo entre o som do tilintar de copos e pratos, berros e gargalhadas, brigas e discursos inflamados.

Genoveva, com o olhar perdido, um dia percebeu-se como uma simples peça de um cenário pintado por algum artista de mau gosto. Seu espírito sentiu um frio pior do que aquele que a matara quando ainda era um passarinho.

Foi embora. Criou coragem e partiu para a capital, determinada a tornar sua arte conhecida.

Mas, quando ainda estava na estrada, em uma noite de inverno, antes de chegar à capital, o frio invejoso novamente congelou seu canto, e o vento soprou forte e implacável no seu funeral. Entre os presentes, só alguns conhecidos das tabernas por onde andou, e o jovem maestro que um dia a admirou.

O som da terra, caindo sobre o caixão, soava como o acompanhamento de uma ária, cantada por ela nos seus tempos áureos. Só o jovem maestro conseguia ouvir.

Quando o coveiro terminou, todos foram embora. Só o maestro permaneceu diante de seu túmulo, pensativo e preso às lembranças de um canto distante.

O velho guarda do cemitério veio chama-lo, antes de fechar o portão. Ao vê-lo tão concentrado e imóvel, perguntou-lhe:

- No que tanto pensas, meu jovem?

- Penso em quantas estrelas, de brilho incomum, reluziram neste céu, sem serem notadas, por estarem distantes, ou posicionadas atrás de asteroides sem vida. Penso nos seres talentosos que nascem com o dom de encantar o mundo, e perdem-se em si mesmos. Penso em pequenos momentos de brilho que justificam, em poucos segundos, toda uma existência.

Os portões do cemitério se fecharam, e o jovem caminhou pela velha estrada, sozinho; enquanto a tarde dava lugar à noite, e os pássaros cantavam em coro, como se saudassem o por do sol.

Extraído do meu livro “Crônicas dos espíritos da Terra”

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Monólogo do Beraldo


Esse danado do meu fio já nasceu com um parafuso a menos e ninguém me tira da cabeça que ele foi gerado no dia em que o circo passou aqui pela cidade. Naquela noite eu levei minha esposa para ver o espetáculo e me lembro que ela riu tanto do show dos palhaços, que chegou a se urinar de tanto gargalhar. Ficou morta de vergonha, que teve que ir no banheiro se limpá. Quer dizer, banheiro, banheiro não era. Esse povo de circo é tudo nômade. Mas, a verdade é que ela sumiu por mais de uma hora. Não viu o resto do espetáculo. Eu fiquei esperando, assistindo ao mágico, ao domador... que até esqueci do tempo. Ela me disse que se perdeu e não encontrou nenhum banheiro. Se não fosse um palhaço bondoso, que apareceu e ofereceu pra ela usar o banheiro do furgão dele, a pobrezinha tinha voltado toda suja. Mas, como tudo na vida se ajeita, ela apareceu no final do show: limpinha, sorrindo e satisfeita. Como ela só viu o show dos palhaços e ainda fez amizade com um deles, eu acho que isso influenciou no momento da concepção do nosso filho, que nasceu nove meses depois gargalhando como um anormal. Minha mulher, naquele dia, deve ter ficado tão cheia de graça, que engravidou; e o menino só foi entender a piada nove meses depois. Francamente, eu não sei do que é que ele acha tanta graça. Mas, na hora de batizar, eu não tive nenhuma dúvida quanto ao nome. Batizei como Hilário. Hilário Dias dos Santos, que via graça em tudo.

Trecho do meu espetáculo teatral "Um jeito matuto de ser" (uma comédia musical), escrito em parceria com Rogério Favoretto

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Para meus amigos desesperançosos


“Observe aquela árvore no jardim do seu vizinho. Veja como cresce, curvada e torcida. Algum sopro de vento trouxe o gérmen, do qual ela brotou, à fenda da rocha; cercada de rochedos e edifícios, oprimida pela Natureza e pelo homem, a sua vida tem sido uma contínua luta pela luz – luz que é a necessidade e o princípio dessa vida mesma: veja como se tem agarrado e enroscado; como, onde encontrava uma barreira, esforçou-se, criando o caule e os ramos, por meio das quais conseguiu elevar-se e pôr-se em contato com a clara luz do céu. Que é o que a tem preservado e protegido contra todas as desvantagens do seu nascimento, e contra as circunstâncias adversas? Porque são as suas folhas tão verdes e formosas como as da parreira que estão aqui, e que, com todos os seus braços, desfruta o ar e o sol, sem empecilhos? Minha filha é porque o instinto, que impelia a lutar, porque os esforços que tem feito para alcançar a luz, a levaram a alcançar por fim, essa luz que tanto procurava. Assim, pois, com o coração valente, atravesse os adversos acidentes e as mágoas do fado, dirigindo o olhar interno ao sol, e lutando para alcançar o céu; é esta luta que dá saber aos fortes, e felicidade aos fracos. Antes que nos tornemos a ver, você terá olhado mais de uma vez, com olhos tristes e pesados àqueles ramos, e quando ouvir como as aves trinam, pousando neles, e quando vir como os raios do sol, vindo, de esguelha, do rochedo e da cumeeira da casa, brincam com as suas folhas, aprenda a lição que a Natureza lhe ensina, e lute, atravessando as trevas, para chegar à luz!”

*Trecho extraído de “Zanoni” – Romance Ocultista escrito pelo inglês Sir Edward Bulwer Lytton (1803/1873) – Tradução de Francisco Valdomiro Lorenz – Editora Pensamento.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Carta ao meu país.


Meu nome é Emilio Gahma. Nasci em 1963 e poderia dizer, se tivesse sido um pouco mais apressado ao nascer, que faço parte da geração dos anos sessenta, que tentou mudar o mundo. Mas, não. Não sou dessa geração.
Sou da geração que pegou a ressaca desta tentativa de mudança. No lugar de ter curtido a jovem guarda ou de ter participado do movimento estudantil, de ter colocado uma mochila nas costas e ter declarado que liberdade era uma calça velha azul e desbotada, eu vesti, na minha adolescência, uma calça de último tipo, coloquei suspensórios, sapato bico fino, e fui rebolar numa discoteca ao som dos Bee Gees, imitando o John Travolta.
É dessa geração que eu sou. Sou um herdeiro de tudo o que restou dos anos sessenta. Vivi os anos setenta e oitenta, sempre ouvindo que nos anos sessenta tudo tinha sido intenso e maravilhoso. Que nos anos sessenta nós descobrimos a liberdade sexual, quebramos tabus, queimamos sutiãs, etc.
Tudo deve ter sido, sem dúvida, intenso e maravilhoso. Mas, até hoje, a melhor frase que define essa época é: “Se você lembra dos anos sessenta, é porque você não estava lá”.
Mais do que uma máxima irônica e venenosa, essa frase me lembra do velho provérbio chinês: “A brincadeira é um furinho por onde, às vezes, a verdade escapa”.
Como herdeiro dos hippies e da contracultura, não vou cuspir no prato em que comi, mas é preciso entender que o estilo de vida e a busca da juventude daquela época era inocente e não havia se rendido às leis do capitalismo que tanto combateu.
Para quem pensa, de forma muito equivocada, que a juventude dos anos sessenta foi derrotada em seu idealismo, e na tentativa de mudar o mundo, vale lembrar: eles venceram!
Quando os Rolling Stones cantaram “Time is on my side”, estavam sendo proféticos. E aí está!
A única surpresa é que eles não tinham a menor idéia do que estavam pedindo, mas o que queriam, aí está.
Um mundo sem fronteiras, com todos falando a mesma língua, como Lennon “imaginava” já é uma realidade graças a Internet. Daí pra frente, é só colocar a imaginação para funcionar.
Como herdeiro dos anos sessenta, reclamo e assumo a minha herança. Como herdeiro da ditadura militar, me rendo à minha ignorância. Mas, eu quero a minha liberdade.
E quando falo dela, reclamo de uma necessidade ancestral. Nessa hora eu sou um dos gladiadores de Espartaco, que marchou contra Roma ciente de que seria derrotado, mas na esperança de vencer ou morrer livre.
Nessa hora eu torço o nariz para alguns “intelectualoides” que sempre ficaram em cima do muro, parodiando Einstein, dizendo “tudo é muito relativo”... ”Ou não.”
Hoje nós temos o que pensamos ser liberdade, mas nem sabemos o que fazer com ela.
O trem saiu dos trilhos e transita por uma linda estrada colorida e florida, com suas rodas de ferro destruindo as flores e os vagões descarrilhados.
Não é culpa dos anos sessenta nem da ditadura militar. É culpa nossa. Estamos com o bolso cheio, mas não sabemos como usar a nossa herança: a dos nossos ancestrais e, mais diretamente, a dos nossos pais.
Eu não quero jogar pedra na cruz nem julgar, porque um dos meus ancestrais me ensinou a não julgar para não ser julgado, e eu valorizo tudo de bom que herdei. Mas, eu ouço lamentos, e tenho que fazer uso da minha liberdade para “escolher” me posicionar. Sem julgar, mas disposto a avaliar e fazer algo a respeito.
Foi por essa razão que, finalmente, resolvi escrever um blog.