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domingo, 27 de dezembro de 2015

2016 - O seu livro do ano novo


Um ano é um livro mágico e especial, de 365 páginas, dividido em 12 capítulos que deve ser lido com muito cuidado. Pois, ao virar cada página, você só poderá contar com sua memória para resgatar o que aprendeu enquanto a lia. Não é possível voltar a determinada página depois de tê-la virado.Por essa razão, você precisa desfrutar de cada página, sem pressa. Deve relê-la no mínimo três vezes. E em cada uma dessas três vezes você deve se fazer três perguntas. Como a leitura desta página pode me ajudar a:
1. Cuidar melhor do meu corpo? Pense em tudo o que se relaciona à sua melhoria e satisfação física (alimentação, esporte, sexo, estética, etc).
2. Cuidar melhor da minha mente? Pense em tudo o que se relaciona à sua melhoria e satisfação intelectual e emocional (estudo, lazer, cultura, família, carreira, projetos pessoais, relacionamentos inter-pessoais, etc).
3. Cuidar melhor do meu espírito? Pense em tudo o que se relaciona ao seu aprimoramento espiritual (estudos filosóficos e religiosos, meditação, orações, etc).

Depois de responder a cada uma dessas perguntas enquanto lê a página do seu dia, você deverá atentar para algumas regrinhas básicas para tirar o melhor proveito desta leitura:


  • Não tenha pressa na sua leitura. Dose a sua energia na leitura de seu livro diário. Aprecie o caminho. A vontade é um tipo de energia que deve ser dosada e devidamente administrada. Quando começamos um projeto com muita vontade, ela se esgota com a empolgação; e acabamos desistindo logo.
  • Ao terminar cada capítulo, reflita sobre ele. Quando observamos como e para onde estamos indo, nossa fé se fortalece e nossa vontade se renova. Tudo aquilo que planejamos faz sentido e o que não é relevante, é descartado. O que tem de ser tem muita força. Quando você faz uma lista do que pretende fazer, no início do ano, e a analisa ao término do mesmo, fica frustrado porque se dá conta de que muita coisa não foi cumprida. Quando avaliamos cada conquista, ao final de cada mês, adaptamos nosso planejamento de acordo com as mudanças e mantemos nossas metas com maior rigor. Nossa dispersão diminui e nossa energia se renova. Capitalizamos as conquistas (o que nos fortifica), aprendemos com os erros (o que nos renova) e descartamos o que não importa (nos limpamos, tiramos o excesso. Ficamos mais leves e ágeis).
  • Pratique o que leu. De nada adianta teorizar a vida. Ela precisa ser vivida. Cem gramas de prática valem mais do que um quilo de teoria. Um dos grandes conflitos do homem moderno é conseguir colocar em prática toda a informação que recebe. Nossa cultura, repleta de informações, nos dispersa e estimula a prática de constantes reuniões e excessivas reflexões. O resultado são grupos de pessoas conectadas às mais diversas redes sociais, que falam rápido, pensam rápido e querem viver a vida de maneira alucinada num único respiro. Buscam avidamente estímulos rápidos e variados, que só fazem aumentar o enorme abismo existente em nossa alma. A satisfação imediata nos impede de degustar o que realmente importa, o explicito nos embota a imaginação e o “espírito de praticidade” nos afasta da vivência (fruto da verdadeira prática). Hoje vivemos no extremo entre a excessiva racionalidade e a fé cega, dogmática vazia de reflexão. Um dos livros mais sábios da humanidade foi escrito pelo poeta grego Hesíodo. Chama-se O trabalho e os dias, e nele o autor nos apresenta preciosas lições de como nos iluminarmos no nosso labor diário, vivendo cada momento como se fosse único, integrados em nosso meio, nosso eco-sistema. Nunca se falou tanto em ecologia e nunca estivemos tão desligados de nosso meio ambiente. Integrar corpo, mente e espírito, nesta ordem de prioridade é a verdadeira forma de se espiritualizar e viver um ano com plenitude e qualidade. O famoso Filósofo e Teólogo Jesuíta Teilhard de Chardin afirmou, certa vez, que: “Somos seres espirituais, vivendo uma experiência terrena, não o contrário.” É fácil alcançar o nirvana vivendo numa floresta, em constante retiro espiritual, ao lado de uma cachoeira e do canto dos pássaros. A verdadeira elevação do espírito deve existir no dia a dia, pagando contas e enfrentando o trânsito, sem se deixar abalar, no coração da tempestade. É preciso praticar, para que a mente e o espírito tenham o que depurar e refinar. O corpo age, a mente depura e o espírito refina.




Feliz ano novo e boa leitura do seu livro!
Emilio Gahma
www.emiliogahma.com.br

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sacerdócio Dionisíaco


Parece engraçado escutar, de algumas pessoas, coisas do tipo: "- Não sei como você consegue fazer teatro. Eu imagino que deva ser desgastante repetir, todas as noites, o mesmo texto. Deve ser monótono, insano!" Só que hoje eu me lembrei que, quando era adolescente, era justamente essa a ideia que eu tinha de teatro. Até que fui em uma apresentação, pela primeira vez, e descobri que não era nada disso. E virei um espectador assíduo daquele fenômeno, que se repetia todas as noite, mas que nunca era o mesmo. Então, um dia eu não me vi mais sentado na plateia. E, de lá de cima, descobri que esta brincadeira de faz de conta era mais do que contar uma bela história. Era voltar ao início de tudo, era reconstruir diariamente a vida. Então, aí eu entendi porque os discípulos do deus grego Dionísio consideravam esta arte como um culto, uma religião. É porque teatro, na sua mais pura essência, é isso: revelação!

sábado, 11 de julho de 2015

Decifra-me ou te devoro!

Nosso país é como uma imensa esfinge, que nos lança enigmas diariamente. Quem consegue responder às questões lançadas, não vê crise, vê oportunidade

Em 1996 tive a oportunidade de trabalhar, por um curto período, para um empresário chinês que me contratou para auxiliá-lo na análise do mercado brasileiro (pretendia exportar para o Brasil). Sua empresa exportava para o Japão e Alemanha (mercados exigentes), e ele tinha grandes planos para o Brasil. Era um homem objetivo, obcecado e determinado. Um autêntico “Tigre Asiático”. Veio com discursos do tipo: - Trabalhe direitinho e, em menos de dois anos você terá o seu Mercedes Benz!
Após algumas semanas de análise, ele bateu em retirada, com a seguinte conclusão: - Tenho que estudar melhor, antes de entrar em seu país. Seu mercado é muito complexo. Nunca mais soube dele. Nos anos seguintes, trabalhei com outras empresas estrangeiras, e obtive excelentes resultados (digo isso sem falsa modéstia, pois as evidências falaram por si). A conclusão a qual cheguei foi a seguinte: De todas aquelas empresas, seja na área comercial ou cultural, com as quais trabalhei, as que obtiveram os melhores resultados por aqui foram aquelas que entraram no nosso país com humildade, dispostas a aprenderem conosco e sobre nós. Aquelas que chegaram com discursos mágicos, com arrogância, e carregando em sua pasta a solução ideal, quebraram a cara. É verdade que temos muito que aprender com outras culturas que deram certo, mas temos também que nos avaliar nos nossos melhores valores. Temos aqui, também, homens geniais, honestos, bons empresários e líderes, que amam nosso país e todo dia acordam dando o seu melhor, mesmo com as adversidades e contra uma corja de políticos que tentam estragar essa bela terra. Digo isso porque conheço alguns, pessoalmente. São pessoas dignas e preciosas, que lidam com essa imensa esfinge, que é o nosso país, e todo dia decifram as questões que ele lhes lança. Cabe concluir, citando a frase do nosso genial Tom Jobim, que conhecia (e amava) esse país como ninguém: “O Brasil não é para amadores!”



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Arriscar-se!




"Arriscar-se é tropeçar em si mesmo, sempre. E, há melhor maneira de dar de cara com a gente, pra colocar o papo em dia?"

A lógica costuma ajudar nessas horas. Basta, nesta tropeçada consigo mesmo, se perguntar:

- O que eu tenho, antes de me arriscar?
- Nada!
- E o que eu terei, se me arriscar e falhar?
- Nada!
- Então, o que eu perco, me arriscando?
- Nada!

Simples, né?

terça-feira, 7 de julho de 2015

O andar do Lobo Ferido (trecho)



E com o passar dos anos, ele aprendeu a combater os invejosos com elogios. Tentava enxergar, na mínima ação que fizessem, algum brilho revelador. Quase chegava a acreditar no valor daquilo que dizia. E continuava seu caminho, seguro e sereno. E, os invejosos o fitavam, crentes de que enxergavam um igual. Mas o sol, cruelmente sincero, projetava sua luz sobre todos, e sua sombra destacava-se, onde quer que se posicionasse, para se proteger das intrigas. Foi então que a noite chegou. E, perante a luz da lua cheia, ele percebeu que só lhe restava soltar seu poderoso uivo, que incomodava e ensurdecia os demais, gelando suas espinhas. Se a luz do sol evidenciava a sua sombra, a escuridão da noite a transformava num imenso manto.

Trecho do conto “O andar do Lobo ferido” - Extraído do meu livro “Crônicas dos espíritos da Terra”

Amar

 


Amar é sentir-se novamente uma criança
perdida em uma praia, 
de mãos dadas com outra
nenhuma certeza
só o mar, pela frente

É olhar para o lado e ver,
na outra criança, de iguais perguntas
só a certeza de segurar a sua mão
e mergulhar neste mar sem fundo
certa de que vai chegar

Amar é fé
infantil, e precisa
é saber que pode se sentar
e ver o por do sol
em silêncio

É ter mil anos
e poucos meses
de uma só vez
É poder respirar
com a cabeça no ombro

E paz
o coração batendo a mil
os dedos fincados na areia
em paz

sábado, 4 de julho de 2015

Como nasce uma piada



A gente nunca sabe com certeza como (ou onde) nasce uma piada (ou um boato), mas existe uma que eu tenho quase certeza que vi nascer, pelo contexto do fato. Trabalho com oratória desde 1993 e, apesar de trabalhar muito com um público corporativo, também tenho o público religioso como um dos meus principais nichos (tenho, inclusive, um livro publicado pelas paulinas sobre o assunto). Em alguns períodos, sou convidado a ministrar cursos em alguns seminários e Faculdades católicas, pelo país. Foi numa dessas ocasiões que fui convidado pelo Seminário de Santo Afonso, em Aparecida (SP), para um curso de final de semana, para uma turma de seminaristas. Lá eu conheci o Padre Hilton Furlani (esse aí da foto), que hoje está com 86 anos de idade, e nunca perdeu seu bom humor. Sei disso porque, apesar de não vê-lo há anos, sempre tenho notícias dele. O Padre Furlani, durante o jantar, me contou um dos seus divertidos "causos":
- Professor, o Senhor deve ter percebido que aqui, na entrada do nosso Seminário, temos uma pequena estrada de paralelepípedos. Pois bem, eu ainda era um jovem seminarista quando um candidato a prefeito veio aqui, fazer campanha; e durante o discurso, fez uma promessa: "Eu tenho fé, vocês têm fé, e com as nossas fezes, nós vamos paralelepipeidar este seminário!"
É claro que todos caímos na gargalhada. E eu passei a contar este "causo" em alguns dos meus cursos, para ilustrar alguns tipos broncos de oradores populistas que existem por aí (na sua maioria, políticos).
Outro dia, em um programa humorístico, na TV, um comediante soltou uma piada, onde dizia: "Eu tenho fé, vocês têm fé. E, com as nossas fezes..." E, parou por aí.
A piada até que funcionou, mas, com o "paralelepipeidar", é impagável!

terça-feira, 30 de junho de 2015

Bella Ciao




"Esta é a história de um sonho! De um grande sonho de um pequeno homem!" Me lembro até hoje desta frase, que abria a peça "Bella Ciao", produzida pelo Grupo Arte Viva; um dos trabalhos mais lindos que vi no teatro. Mudou a minha vida, completamente! Nem lembro de quantas vezes assisti a essa obra prima, no extinto Teatro Taib, na Rua Três Rios, no Bairro do Bom Retiro. Eu já estudava teatro naquela época (1984), e me encantei com a peça, com tudo. Me lembro até que consegui convencer a produção a me deixar gravar o espetáculo com um gravador K7 (naquela época era muito caro comprar uma câmera de VHS). Ficava ouvindo o espetáculo, em casa, e imaginando as cenas. Alí eu decidi: Vou estudar dramaturgia com esse cara (o Luis Alberto de Abreu, autor do texto), e fui à luta! Consegui o telefone dele, fui até a casa dele (no bairro da Vila Mariana), conheci a esposa dele, com seu filho recém nascido, e não larguei mais do seu pé até que ele me aceitou como seu aluno na turma de dramaturgia, que ele montou no CPT (do Antunes Filho), quatro anos depois (em 1988). Aquele elenco maravilhoso até hoje povoa meus sonhos, com os ecos de suas maravilhosas interpretações. Fiquei amigo de alguns. Mas, do Abreu, eu virei discípulo, sem babação de ovo ou idolatria. Por respeito, e admiração, a alguém modesto, provocador, de fala mansa... Tranquilo! O meu mestre, Abreu! A gente às vezes anda por essa vida, causando uma coisa aqui, outra aculá, e nunca se dá conta do quanto realmente causamos. E de quantas vidas transformamos. Gratidão, Grupo Arte Viva! A arte de vocês ainda vive em mim.

domingo, 28 de junho de 2015

TRAPEZISTA


Quando eu era criança, e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu nunca sabia o que responder. Travava na resposta!
Um dia, quando meu pai me levou em um dos circos que passavam pela minha cidade, na saída eu declarei, como num suspiro, sem que ninguém me perguntasse: - Quando eu crescer, quero ser trapezista!
Ninguém me perguntou por que. Deram um sorriso, entendendo minha empolgação, e a história ficou ali mesmo.
Hoje, eu chamei minha criança para um papo e lhe perguntei o porque daquela resposta. E ela me disse, sem pestanejar, com a simplicidade que um dia eu tive:
- Ah, porque um trapezista não tem nada, e tem tudo. Tudo o que ele precisa já está com ele, no seu corpo e na sua mente. Ele só precisa de um pouco de pó, nas mãos, para não escorregar. Porque ele se arrisca, e parece gostar disso. Ele é livre! Conhece a liberdade de um pássaro voando, mesmo que seja apenas por alguns segundos, quando se joga no vazio. E também porque ele depende das outras pessoas, e sabe valorizar isso, abençoando a mão que o agarra, aparando-o no ar. Na verdade, o que eu queria mesmo, quando crescesse, era ter o “espírito de um trapezista”, não importando a profissão que escolhesse, desde que eu pudesse ter tudo isso. E aí, eu virei ator!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sobre a certeza

Existem pessoas que não percebem a riqueza da dúvida porque andam embriagadas com a pobreza da falsa certeza. Aquele que realmente possui a certeza, nunca para de descobrir as novas faces da verdade. Surpreende-se como uma criança, que nunca deixa de emocionar-se espontaneamente.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

MEU FILOSOFAR DE HOJE



"A maior honestidade que um homem pode ter é para consigo mesmo. Esse tipo de honestidade é a mais rara e difícil de ser alcançada, pois nunca somos a mesma pessoa, estamos sempre mudando, a cada momento somos um novo alguém. Então, ser honesto com quem? Como, se cada novo eu que surge está sempre sendo enganado pelas ideias e tramóias de um eu que já não existe?"

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Professor Gastão



No ginásio, na minha sexta série, quando eu estudava no Colégio Alfredo Bresser, em Pinheiros (São Paulo, Capital) eu tive um professor de Educação Moral e Cívica, chamado Prof. Gastão. Ele era alto, falante, um pouco histriônico e altamente reacionário. Não parecia. Todos riam em suas aulas, ele me tratava carinhosamente por “Emilinho” e, se a gente respondia atravessado a alguns de seus "bullyings”, ele respondia: - Meu querido, você não percebe que o meu bom humor me obriga a brincar com você? E nos desmontava.

Me lembro que em uma de nossas primeiras aulas ele falou de Robinson Crusoé, para ilustrar que nenhum homem é uma ilha. Na mesma hora eu lembrei, e levantei a mão:
- Professor, tenho uma revista que conta a história do homem que inspirou esse livro.
- Que maravilha, Emilinho! Você poderia trazer pra gente ver, na próxima aula?
- Claro! Respondi, todo orgulhoso, por ter alguma coisa exclusiva, que poderia contribuir com nossa aula.
Ao chegar em casa, a primeira coisa que fiz foi colocar o “gibi” na minha mochila, para não esquecer. Exatamente! O gibi! A revista que eu tinha era um Gibi, editado pela Bloch editores, com super heróis da Marvel. Não me lembro ao certo qual era o herói titular da revista (poderia ser o Capitão América ou o Homem Aranha), mas me lembro que, no final destas revistas, eles publicavam (talvez para preencher espaço, tornando a revista mais volumosa e atraente, ou até mesmo para educar os leitores com algo mais instrutivo do que histórias de super heróis) adaptações para os quadrinhos de fatos históricos, ou de episódios inspirados na vida de grandes personagens da cultura mundial. Me lembro de uma história sobre o pintor Giotto di Bondone, e da história de um marinheiro escocês, chamado Alexander Selkirk, que brigou no navio e foi abandonado em uma ilha do Pacífico, onde viveu por quatro anos, em companhia de uma macaca, que ele domesticou, até ser resgatado. Sua história foi adaptada para os quadrinhos e publicada neste gibi. No final da história, havia uma nota que dizia que Daniel Defoe se inspirou em sua história para escrever seu célebre romance, Robinson Crusoé.
Na aula seguinte, ao entregar a revista ao meu professor, uma surpresa:
- Mas, o que é isto?
- A revista de que falei.
- O senhor está tentando zombar de minha aula?
- Não, professor, olhe aí dentro que o senhor vai ver…
- Vá agora para a diretoria.
- Mas, abra a revista, e…
- Nem mais uma palavra. Como o senhor ousa zombar da minha aula, me trazendo um lixo destes?
- Mas, professor…
- Já para a diretoria!
E lá fui eu para a Diretoria, sob os risos e zombarias de toda a sala. Ainda tinha a esperança de que ele ao menos folheasse a revista e descobrisse a minha história. Quem sabe ele percebesse em tempo, e até se retratasse. Mas, isso nunca aconteceu. Ele não me devolveu meu gibi, não tocou mais no assunto, e o caso foi arquivado nos fichários da minha memória, como uma das grandes injustiças que sofri.
Anos depois, na faculdade, quando tive uma das primeiras aulas de Semiótica, com o Professor Araújo (não lembro o primeiro nome dele, só o chamávamos por Araújo), ele analisou uma história em quadrinhos do Monstro do Pântano, escrita pelo célebre Alan Moore. Analisou o roteiro, a linguagem gráfica, as cores, os signos (ícones) presentes para provocar no leitor uma sensação estética. Enfim, deu sentido a toda a iconografia existente na obra.
Me senti motivado a confessar que, desde a mais tenra idade sempre fui um leitor assíduo dos quadrinhos. E contei o episódio com o professor Gastão, para ilustrar o preconceito com o gênero.
O Professor Araújo, indignado, sentenciou: - Mas, este homem era um troglodita! Como pode, um educador, inibir desta maneira uma iniciativa juvenil? Será que ele não sabia que desde o década de oitenta, os quadrinhos já são considerados como a 9a arte?
Saí da aula com a alma lavada, me sentindo um vanguardista. Senti até uma certa compaixão pelo professor Gastão. Nos anos setenta os quadrinhos eram considerados subcultura. Sua intenção talvez fosse boa: - Onde já se viu, eu tento ensinar a eles sobre literatura, estimulando-os a lerem Robinson Crusoé, e aquele energúmeno me aparece com uma revistinha do Homem aranha!

No final, me questionei, qual seria o seu legado? O que lembro sobre ele? Há algo a acrescentar? Nenhuma foto para recordar! Muito pouco!
Algumas imagens e informações soltas foram surgindo. Sua figura era marcante: alto, grisalho, bigode farto, cabelos penteados para trás (quase engomados). Seu estilo de falar era formal e a articulação, às vezes, carregada. Mas, como já disse, havia um certo histrionismo em sua forma de dar aulas que nos provocava riso. Eu costumava imitá-lo para meus colegas com a frase: “Você fica quieto, aí!” Me lembro que todos os colegas, principalmente as meninas, riam muito quando eu esbugalhava os olhos, esticava o pescoço, e balançava a cabela pateticamente, ao dizer a frase. Era advogado! Namorava uma morena alta e muito bonita (todos os colegas, adolescentes, comentavam que ela deveria ser modelo). A segunda imagem mais marcante dele, comigo, foi nos corredores da escola, no penúltimo ano do ginásio, quando meu irmão faleceu. Todos os professores vieram me consolar carinhosamente, cada qual a seu modo. Quando encontrei com o Professor Gastão, imaginei ele me falando carinhosamente, como algumas vezes o fez em aula, para nos desmontar. Mas, seu discurso foi um voto de pêsames formal e contido. Talvez estivesse tentando segurar a emoção, para não demonstrar qualquer fraqueza. Não sei! Algumas pessoas simplesmente não conseguem demonstrar suas emoções. O personagem que o professor Gastão criou, talvez fosse assim.
Mas, alguma coisa dele vive em mim, com certeza. Nem que seja para eu colocar em algum dos meus personagens, no dia em que tiver que dizer, em alto e bom tom: "Você fica quieto, aí!”

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Lençois, amantes e ácaros



Uma pesquisa (veja no link, anexo: http://www.bbc.com/…/cienc…/story/2005/01/050118_asmag.shtml) apontou que camas dessarrumadas possuem menos ácaros do que as perfeitinhas; contrariando o nosso perfeito senso de organização. Mas, a resposta é simples: camas arrumadas não possuem o suor dos amantes, os gritos sufocados na noite ou os gemidos trêmulos da carne. Ácaros gostam do suor frio dos solitários, das mãos geladas dos limpinhos e da baba dos chorões de travesseiros. Ácaros são velhos e embolorados, como as camas pouco usadas. Mantenha suas cobertas em desalinho! Nas dobras dos lençois ecoam os sons da noite passada, como se reverberassem pelos túneis de uma imensa caverna. Feliz dia dos namorados!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sobre a estrada


Quando tão jovens
uma estrada só
Queen, Led Zeppelin, Zé Ramalho e Beatles na mochila. 
E todo tempo do mundo para errar.
Ah, as quedas são os atalhos e bifurcações do caminho.
Só existe um único, e principal caminho. 
Let it be, let it be!

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Passado, presente e futuro




Se é verdade que no reino do absoluto, não existe presente, passado ou futuro, vivo neste absoluto. Agora, já! Ó tempo, senhor de todos os recortes da lembrança, fortalece o meu passado com gratidão, para que eu continue forte hoje, neste presente respirar. Para que meu peito, aberto e sedento, se encha com todas as possibilidades do vir a ser!

terça-feira, 2 de junho de 2015



O grito (kiai) deve ser surpreendente, deve vir do âmago, pois está liberando uma energia de ataque. Uma vez que este ataque vem em forma de som, assusta o inimigo e o deixa desprotegido por alguns instantes. Cada pessoa tem o seu próprio kiai, e ele é tão pessoal, quanto uma impressão digital. Um lutador que desejar desenvolvê-lo, precisa fazê-lo brotar, arrancá-lo, de suas entranhas.
Não se ensina um kiai, mas ele pode ser aprendido. Um professor pode orientar, conduzir, o aluno a pesquisar o seu próprio grito. Mas, se tentar ensiná-lo, o resultado será catastrófico. Seu aluno, certamente, cometerá o grave erro de tentar imitá-lo, aprendendo apenas uma forma vazia e estereotipada. O tiro sairá pela culatra. Quando se utiliza um kiai, estando apenas na forma, vazia de energia, ele não provoca qualquer efeito no adversário. Ao contrário, acaba alertando-o sobre o movimento do ataque e o deixa prevenido, facilitando a sua defesa.
O kiai deve ser surpreendente até para quem o emprega, ou então não deve ser usado. Se o lutador não sentir que vai surpreender, é melhor que ele ataque calado.

Trecho extraído de meu livro "Quem teme perder, já está vencido" (Lições aprendidas em uma academia de artes marciais, que podem ser úteis em vários setores de nossa vida) 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Brasas adormecidas



“De vez em quando uma lembrança vem, e nos pega desprevenidos. E, quando vem acompanhada de uma revelação, nos deixa mais surpresos do que curiosos.
Uma lembrança é como uma brasa que ainda arde em silêncio. Vez por outra jogamos água sobre ela; mas, logo em seguida, vem o coração e espera ela secar, para atear-lhe fogo, novamente.”

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Os ecos de mim


Eu vi coisas que vocês, normais, não acreditariam
Vi a linha que separa a coxia, do palco
e tremi ao cruzá-la pela primeira vez
Vi o foco de luz do refletor,
que me cegou, para me mostrar um outro mundo

Povoado de poetas, sonhadores, alucinados
e inocentes
De rainhas loucas, poderosas
e esquecidas

Eu estive em cada canto
deste mundo estranho
em mares, espaçonaves,
montanhas escuras e auroras boreais

Eu vi a plateia, lotada de rostos
respirando ansiosos, para conhecer
o que tinha a lhes mostrar
E vi a plateia, vazia
com os ecos das noites de ontens

Trago, dentro de mim, o eco de muitas gargalhadas
E choros, sufocados em silêncio, diante das tristes cenas
que um dia eu vivi, só de brincadeira
trapaceando com as emoções

Todos esses momentos
ficarão gravados, em minha alma
Esquecidos por vocês
Mas, levados comigo
por toda a eternidade

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Gorgulho de ser eu mesmo



Essa história de se parecer com alguém às vezes surge em nossa vida de maneira engraçada. Não é raro nos dizerem coisas do tipo “Você me lembra alguém, mas eu não sei bem quem é”; e aí fica a dúvida, que até vira assunto para um bate papo (ou uma cantada barata).
No meu caso, as pessoas já sabem quem eu lembro, isso quando não me confundem com a pessoa.
Na época do Ginásio eu tinha o mesmo lay out que um amigo, o Marco Antonio Pinto. Hoje a gente não se parece em nada, mas na nossa adolescência, nos vestíamos de maneira parecida e tinhamos o mesmo corte de cabelo. Isso não era intencional, mas aconteceu assim. E, eu me meti em várias encrencas por causa disso. Ele era muito namorador e eu, tímido, gastava minhas energias treinando Karatê. O resultado disso é que acabei arrumando pelo menos umas três brigas por causa dele. Os caras me abordavam pensando que eu era ele. Vinham tomar satisfação porque ele havia roubado a namorada de algum, e eu tinha que responder pelo crime. A sorte é que eu sabia me defender e me virava como podia, pois os chifrudos nunca vinham sozinhos. Só descobri o mistério tempos depois, quando nos encontramos em uma mesma festa, e a maioria das pessoas percebeu quem era quem. O pau parou de comer para o meu lado, mas o Marcos continuou comendo, e tendo que arcar com as consequências.
Ontem, ao assistir na TV à “Dona Flor e seus dois maridos”, veio o comentário: - Nossa, o Nanini está a sua cara, neste personagem!
Já me disseram que eu lembro o Nanini em algumas ocasiões, mas eu não vejo nada de parecido.
Em outras, quando estou de terno, e cabelo curto, me dizem que eu lembro o Celso Russomano. Aí eu me ofendo, pois não me identifico nem um pouco com o “menino malufinho”.
Mas, me saio destas questões com o seguinte argumento: - Gente, eu sou um ator, me pareço com qualquer pessoa, basta estar bem caracterizado!
Mas, existe um que foi, por algum tempo, unanimidade: o ator Paulo Gorgulho. Me compararam com ele durante muito tempo e até as namoradas diziam: - Mas, não tem diferença, você realmente lembra muito ele!
Em 1990, na época em que a novela Pantanal estava no ar, na extinta TV Manchete, aconteceu um fato muito engraçado. O Gorgulho estava fazendo muito sucesso com o Personagem Zé Lucas do Nada, e eu estava em cartaz com o espetáculo Rumo a Damaskus, no Centro Cultural São Paulo.
Eu interpretava um mendigo que falava latim e aparecia nos momentos mais inusitados, quebrando o clima tenso e gerando alguma empatia na plateia; e usava barba. No dia que o espetáculo encerrou a temporada, a primeira coisa que fiz foi me barbear.
Na manhã seguinte, encontrei um amigo que também estava no elenco – Roberto de Melo Junior – e ficou incumbido, junto comigo, de acompanhar a desmontagem do cenário. Nos encontramos bem cedo e, enquanto descíamos as escadas do Centro Cultural, fomos abordados por uma atriz que estava ensaiando em uma das salas:
- Você trabalha no Rumo a Damaskus, e faz o papel do Mendigo?
- Sim!
- Qual é o teu nome?
- Emilio. Emilio Gahma!
- Gostei muito do teu trabalho, Emilio! Tchau!
- Reconhecido, hein! Comentou o Beto.
- E, sem barba! Completei.
Meu ego chegou nos píncaros. Mal o dia começou, e eu me sentia alguém.
Terminamos a desmontagem do cenário e me despedi do Beto. Ele acompanhou o caminhão até o depósito e eu fui em direção à estação estação de Metrô Vergueiro. No caminho, fui abordado por uma senhora:
- O senhor poderia me dar o seu autógrafo?
- A senhora também assistiu ao Rumo a Damaskus. Disse eu, todo orgulhoso, não cabendo em mim de contente.
- Não, meu filho! Eu te assisti na novela Pantanal!
Meu mundo caiu!

domingo, 10 de maio de 2015

Memórias de um Monge Guerreiro

“Nasci durante uma guerra, exatamente em um campo de batalha. Minha mãe gritava de dor em meio aos bombardeios, tiros e gritos de homens enfurecidos, amedrontados e apressados.
Alguns homens, enquanto lutavam, a percebiam parindo, ali mesmo, no meio do nada. Mas não tinham tempo para se importar com mais nada, a não ser salvar suas vidas.
E assim, eu nasci. Meu primeiro choro foi abafado pelos tiros dos canhões. Posso dizer, sem nenhum orgulho, que sou filho da guerra.
Quando o conflito cessou, eu já estava crescido, de pé sobre uma colina, contemplando um campo que fora banhado com o sangue de muitos, e que a terra tratou de beber, e transformar em relva abundante.
Mais tarde me deram uma espada, para que tratasse de me defender, da melhor maneira que pudesse.
Foi então que aprendi a farejar a guerra em seus menores ruídos e movimentos; que aprendi a manter minha espada sempre na bainha, sem esforço, sem luta, sem dor.
A guerra me criou assim: próspero, alegre e misericordioso. Me mostrou o som que há no coração dos homens, para que eu pudesse escutar o meu próprio.
E a guerra me ensinou a harmonia que existe, entre a tempestade e a calmaria.”

Crônica de Guerra, do meu Espetáculo Teatral " Arte da Guerra"